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SOBRE MIM
Um dos responsáveis pelas mulheres de hoje usarem ternos e calças compridas cotidianamente. E de os homens estarem inseguros até para escolher o restaurante onde o casal vai jantar.


SOBRE O BLOG
O lugar onde costuro ideias e dou minhas alfinetadas. Não repare no layout básico, modelinho prêt-à-porter.


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  • 2011
  • Abril
  • A ESSÊNCIA É A MESMA
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A ESSÊNCIA É A MESMA
Leio que o estilista Karl Lagerfeld trabalha na criação de um perfume que será batizado de Paper Passion. A fragrância, obviamente, terá cheiro de papel. Será vendida dentro de um livro de capa dura, acomodada num bercinho construído por páginas escavadas. Karl é um notório apaixonado por livros físicos, esses que a gente folheia as páginas com a mão, lembra? Imagino que, diante da crescente onda do livro digital, viu-se na obrigação de preservar pelo menos o cheiro dos modelos analógicos. Mas todos hão de convir que sua nova criação é um reconhecimento de que a era do livro de papel está com os dias contados.

Muitos amam os livros como objeto. Não estou a falar daqueles que os compram por metros para enfeitar as prateleiras. Não tenho preconceito algum contra esses fanáticos por paredes eruditas. Prefiro um ambiente decorado com centenas de lombadas que nunca serão tocadas, a não ser pela faxineira em dia de tirar pó, do que um retrato alegre do Romero Brito. Estou falando daquele grupo de leitores que têm verdadeiro fetiche por capas, por segurar as encadernações nas mãos e aspirar o cheiro da tinta e cola. Que se enchem de alegria só por estar numa livraria ou numa biblioteca. Esses agora poderão, a partir de agora, pendurar o tablet na parede e borrifar a fragrância pelo ambiente.

Aliás, não entendi ainda se o novo perfume de Karl é para ser aplicado sobre os e-readers e notebooks ou direto na pele. Fiquei também a pensar: que tipo de cheiro de livro Karl estará reproduzindo: novinho ou mofado? Será que teremos alguma edição especial com traças?

A tecnologia é mesmo paradoxal. Ela que decreta o fim de um suporte e, ao mesmo tempo, é engenhosa o suficiente para reproduzir o cheiro do que acabou de matar. A técnica de sintetizar os mais diversos aromas evoluiu muito. Hoje em dia encontramos nas gôndolas dos supermercados salgadinhos e doces com os mais diferentes e específicos cheiros e sabores. Não me surpreenderia esbarrar com a embalagem de um biscoito sabor pizza calabresa toscana de massa fina, acompanhada de refrigerante light, copo com gelo e sem limão, por favor.

Creio que outros perfumistas se utilizarão dessas técnicas avançadas para dar vazão às suas nostalgias. Prevejo grandes lançamentos nessa área. Vídeo K7 Magic, Fax Mon A Mour, Telex Fatale e Mimeógrafo La Folie. Esse último reunirá aroma de selecionado álcool de limpeza, reflexos de metal, notas de papel-carbono e folhas A4 para dar o toque amadeirado.

Confesso que se estivesse por aí, não usaria esse arsenal técnico para faturar em cima do mercado saudosista. A nostalgia é sempre uma ótima maneira de nos dizer que os bons tempos se foram e que tudo que nos resta agora é recordar. Dizer que o presente é a pior época para se viver é uma mania presunçosa de todas as gerações. Pode esperar que daqui a uns anos, quando os livros forem projetados no ar e as mudanças de páginas se derem pelo movimento dos olhos, alguém produzirá uma fragrância de iPad.

POSTADO POR: Yves Saint Laurent