ÍNTIMO DE BILHÕES

Li que cientistas conseguiram transmitir eletricidade sem fio. Encontrei essa notícia num canto de uma página de um jornal e depois a vi sem grande destaque em um portal. Cliquei para ler os comentários sobre essa auspiciosa descoberta. “Agora que a gente vai fritar mesmo kkkkkkk.” “Finalmente a bateria do meu celular não vai acabar antes do meio dia.” “Onde compra?”. 

Não encontrei ninguém espantado. Nenhum comentário especulou sobre o impacto que essa descoberta poderá ter no desenvolvimento de novos produtos, no desenho das cidades e na ocupação de áreas remotas do planeta. Todos já dão como certo que esse era um passo inevitável dos avanços científicos. Assim como ninguém mais se deslumbra com as milhares de maravilhas tecnológicas que fazem parte do cotidiano do habitante do século XXI. Pelo menos é isso que descobri, recorrendo a uma ferramenta de pesquisa que no intervalo de 0,23 segundos me ofereceu 358.4560000 resultados. 

A vida do escritor de ficção científica não está fácil. Não que ela tenha sido algum dia. Mas esse gênero que ajudei a construir e consagrar, dependia das impossibilidades tecnológicas para manter o seu fascínio. Se tudo é possível de ser realizado, não há mais ficção científica, mas apenas ficção. 

Muitas das predições contidas em meus livros, como viagens à lua e submarinos, não só se concretizaram, como se sofisticaram ao extremo, superando até a minha prodigiosa imaginação. O problema é que hoje você imagina algo e quando vai pesquisar ela já existe. Por isso, vou abandonar as engenhocas e me dedicar a prever ficcionalmente comportamentos sociais. Esses ainda causam espécie.  

É o caso da privacidade. A vida íntima já teve valor. Hoje ela é exposta voluntariamente nas redes sociais, nos programas de TV e nas revistas de fofocas. Até a reprodução é assistida. Meus contemporâneos ficariam de queixo caído em saber que virou um hábito, tão corriqueiro como escovar os dentes, informar, para conhecidos e desconhecidos, a onde está, o que está fazendo, o que está vendo e o que está pensando. 

Prevejo que, num futuro não distante, a privacidade não será uma questão para a maioria das pessoas. Ninguém se importará em preservá-la. Pudores serão deixados de lado. Haverão redes sociais, baseadas em geolocalização, para compartilhar a realização das necessidades fisiológicas. “Simone acabou de urinar 102 ml em Ribeirão Preto.” Mães acompanharão a feitura da lição de casa dos filhos pelo feed de pensamentos. Tratamentos de canal serão transmitidos ao vivo e com espaço para comentários. “Vamos ver se agora ele cuida mais dos dentes”. Aplicativos medirão e postarão a performance sexual dos praticantes com gráficos que analisarão o desempenho do dia, mês e do ano, para os casados.

 Quando esse dia chegar, seremos todos íntimos e desinteressantes. Pois já não representaremos mais nenhum mistério para o outro. 

Compartilhe:

Sobre mim

Escrevi sobre submarinos, aviões e espaçonaves antes deles serem inventados. Mereço crédito até se eu disser que sei como é o Iphone 5.

Sobre o blog

O blog não é de ficção científica, mas sim de realidade intuitiva.

Arquivo do blog