TÍTULO SEM NOBREZA
Quando começamos a cortar as cabeças da realeza e dos amigos do antigo regime, a França tinha três estados: Clero, Nobreza e Povo, cada qual com uma legislação distinta. Dá pra acreditar que naquela época só pobre ia pra cadeia? Que só uma pequeníssima parte da população gozava de privilégios como cometer delitos de toda espécie sem punição? Eu sei, parece chocante, mas já foi assim um dia.
Por isso dói ver o mundo inteiro fascinado pela realeza em pleno século XXI. Talvez pra você esse assunto seja coisa do passado. Os noivinhos já estão em lua de mel. Concordo plenamente. Esse tema deveria ter encerrado, mais especificamente, em 5 de maio de 1789. Eu tentei, não foi possível. Parece que o desejo humano de fazer parte de uma área VIP é mais forte do que qualquer ideal igualitário.
Você pode até argumentar que aquele teatro da nobreza é bonitinho e que hoje o papel do monarca é restrito a funções como outorga de honraria e tomar o chá das 5. E é justamente isso que me desagrada. Acho a monarquia constitucional não despótica, como a britânica, muito pior do que a monarquia plena. Porque nela a rainha da Inglaterra só faz o papel de rainha da Inglaterra, e ainda por cima é sustentada pelo operário. Se eu estou pagando, prefiro que essa gente trabalhe de verdade, mesmo que atuando como um déspota não esclarecido.
O casamento de William e Kate, além de uma afronta clara à democracia, contribuiu muito para a infantilização do planeta. O que eu vi de mulheres, com idade e formas inapropriadas para serem chamadas de princesa, suspirando pelo príncipe encantado, não foi petit gateau (bolinho). Milhões de garotas ressuscitaram o sonho, enterrado nos anos 60, de ter um casamento de conto de fadas, cercado de riqueza e opulência que, por passe de mágica, as tire da laje.
A saudade da realeza está impregnada até na linguagem cotidiana. Quando alguém fala "nobre colega" está a dizer que determinada pessoa é distinta, elevada, altruísta e justa.
Na verdade, deveria expressar o contrário. Se todos tivessem memória, "nobre colega" significaria pessoa que se acha superior simplesmente por ter nascido de um ventre com pedigree. E que por tal motivo trata a emergente classe C como se fosse um tipo de humano homogêneo e de características biológicas completamente distintas.
Mais do que lutar contra as poucas monarquias restantes, precisamos combater o desejo de nobreza. Proponho uma nova tomada da Bastilha (que tal uma de três pinos pra complicar a vida de todos? – desculpe a infâmia, foi só um desabafo). Vamos invadir o Castelo de Caras. Vamos recolher todas as Barbies Princesa e substituí-las por Barbies funkeiras. Vamos arrancar os brasões das camisas polo. Vamos trocar os nomes de condomínios metidos a besta, tipo Condado da Baronesa, para nomes populares como Morada da Plebeia. Vamos proibir o Rei Roberto de fazer especiais de final de ano e o Rei Pelé de dar entrevista.
Pode me chamar de jacobino radical. Não vejo outra saída. Só aceito amenizar esse plano se alguém conseguir me aproximar da bela Pippa Middleton, a irmã da duquesa Kate. Pra essa princesinha eu faço a corte. Delícia.