A TERRA ESTÁ BLUES
Não sei se vocês viram essas imagens da Terra, divulgadas pela Agência Espacial Europeia. Nelas nosso planeta aparece disforme e desengonçado. Como se fosse fruto de um Deus com boas ideias, mas com nenhuma paciência para executá-las. Um retrato bem distante da forma arredondada que está no nosso imaginário. As imagens mostram em detalhes o chamado geoide, nome que os cientistas dão ao formato real do planeta, que é irregular e com a massa distribuída de maneira desigual.
Foi um golpe duro para nós, terráqueos. Copérnico já tinha melado nosso sonho de grandeza, de senhores do universo ao dizer que não era o Sol que girava em torno da Terra, mas sim o contrário. Tenho certeza de que uma das principais consequências da teoria do heliocentrismo foi a descoberta do Prozac.
Na era da informação, dados de toda as naturezas se cruzam e nos revelam verdades que minam a nossa autoidealização. Você lê, por exemplo, um livro como Freaknomics, do economista Steven Levin e do jornalista Stephen J. Dubner, e entra em contato com a tese de que o que diminuiu a criminalidade de Nova York na década de 90 não foi a engenhosidade de um grupo de administradores. Os autores defendem que foi o aborto o grande responsável pela pacificação da metrópole. A relação de causa e efeito não foi intencional.
Quer mais? O Projeto Genoma nos mostrou que em vez dos 100 mil genes imaginados, o homem tem apenas 30 mil, número idêntico ao de um pé de milho. Ou seja, estamos muito próximos da pamonha, pamonha...
O WikiLeaks é outro que contribuiu para nossa descrença no talento humano. Ele escancarou que os homens e as mulheres que comandam a diplomacia americana, a CIA e o FBI não são aquilo que víamos nos filmes. Se soubéssemos disso antes, não teríamos acelerado tanto a corrida espacial.
A abundância de dados afeta também nossa estima no plano individual. O Itunes, por exemplo, mostra que você tem escutado, comprovadamente, mais Exaltasamba do que Miles Davis. Você gosta de pensar que é um amante de jazz, mas a contabilidade prova que sua alma é pagodeira.
Tenho a consciência tranquila. Eu fiz minha parte, tentei manter a poesia. Mesmo estando no interior de uma cápsula apertadíssima, temendo por minha vida, já que tripulava uma nave construída pelo mesmo país que criou o Lada Niva, fui capaz de dizer a simples, óbvia e inspiradora frase que me notabilizou: “A Terra é azul”.
Mas não adianta querer mudar o curso dessa órbita. Uma enxurrada de novas revelações seguirá golpeando com violência nossas ilusões. E como resposta a tudo isso, aumentaremos, ainda mais, o número de comédias românticas nas salas de cinema.
POSTADO POR: Gagarin