SAMBA, SUOR E LÁGRIMAS
Há um certo exagero por parte da imprensa brasileira em comparar a ação contra os traficantes nos morros cariocas com o Dia D, o dia decisivo, em que os aliados ocidentais desembarcaram na costa da França e deram início ao fim da Segunda Guerra Mundial. Eu entendo, a tentação, as coincidências são muitas.
Para começar, em ambos os casos o objetivo era domar o Complexo do Alemão. A dificuldade das duas tarefas impôs uma tríplice aliança. No Rio, Polícia Militar, Polícia Civil e Exército. Na Europa, Grã-Bretanha, Estados Unidos e União Soviética. Aos que gostam dessa comparação, sugiro identificar logo quem é o Stalin do Brasil.
Querendo forçar a barra na aproximação de cenários, dá até para fazer uma associação entre as praias banhadas pelo Canal da Mancha na França e as manchas de óleo e dejetos na Baía de Guanabara. Sem contar que os dois conflitos têm uma versão de Call of Duty.
As semelhanças param por aí. Na Normandia encontramos algumas facilidades que nossos pares cariocas não tiveram. A identificação dos inimigos era mais simples. Eles falavam alemão e usavam uniformes distintos ao nossos. Também estávamos mais disponíveis para o combate. Os filmes enaltecendo nossos heroísmo foram realizados muitos anos depois.
Me parece que outra sensível diferença, modéstia à parte, se dá no campo da oratória. Uma guerra também se ganha com palavras. Surrados clichês são armas desgastadas que não atingem em cheio a população. Ou quando atingem, seus efeitos têm pouca duração. Logo são exigidas novas doses de lugares-comuns. Não ouvi nenhuma autoridade brasileira dizendo nada que pudesse rivalizar com alguns de meus famosos ditos como: "Eu apoiaria o Diabo se Hitler invadisse o Inferno" ou "durante a guerra, a verdade é tão preciosa que ela deveria ser sempre acompanhada de mentiras como guarda-costas". No Brasil a coisa ficou na base do “o bem venceu o mal”.
Outra distinção: nós fomos mais comedidos na comemoração. O que se mostrou acertado. Meus soldados e a população da Grã-Bretanha não estavam preparados para tantas manifestações de pieguice. Matérias com moradores do morro fazendo coraçãozinho com os indicadores e polegares e crianças escrevendo PAZ nas calçadas são imagens de grande violência para os espíritos mais críticos.
Não quero aqui parecer o do contra. Acredito que algo tinha de ser feito para impedir o avanço dos narcotraficantes. Suas provocações não poderiam ficar sem resposta. Se a tomada do Complexo do Alemão se tornará um marco na luta contras as drogas, só o tempo dirá. Mais importante que o dia D é o dia Z. Acredito que as exaltações triunfalistas só serão plenamente justificadas quando as forças aliadas tomarem a CBF e renderem o Ricardo Teixeira, que, aliás, apareceu estes dias aqui na BBC. Mas para isso será necessário um aparato bélico muito maior.
POSTADO POR: CHURCHIL