“Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval.” Essa marchinha de Zé Kéti e Pereira Matos ainda é tocada nos dias de hoje. Mas seu conteúdo perdeu aderência. Atrás dos blocos e dos trios, ninguém mais avisa que vai praticar o saudável exercício do ósculo. A turma quer beijar em quantidades industriais, não importa se com ou sem consentimento. Melhor que beijar, só contar no Twitter quantos pegou ou te pegaram. O governo chegou até a promover uma campanha na televisão na qual alerta para os riscos à saúde que a excessiva troca de línguas pode ocasionar. Devemos ver os seus efeitos já nessa edição com mais pares andando apenas de mãos dadas.

Longe de mim censurar os novos foliões. Quando compus a maior parte das minhas marchinhas de carnaval o mundo era outro. Jardineiras sensibilizavam-se por Camélias que caíam dos galhos. O único risco de atravessar o deserto do Saara era que o sol queimasse a nossa cara. Um biquíni do tamanho de uma casca de banana-nanica era considerado pequeno. Cada época canta seus costumes. Não encontramos mais Pierrôs chorando pelo amor das Colombinas, porque quem está apaixonado nem vai pra avenida. Fica em casa esperando o clima de pegação passar.

O que eu acho curioso é que a ingenuidade migrou das antigas marchinhas de carnaval para a crença de que patrulhar a linguagem das letras, bem como de toda a produção cultural, é o mesmo que trabalhar para uma sociedade mais justa e igualitária. Se o pessoal que andou perseguindo o Monteiro Lobato se debruçasse sobre as mais consagradas marchinhas, hoje as bandas de carnaval tocariam só percussão. Quer dizer, já é assim, mas a melodia desapareceu por outros motivos.

O fato é que ninguém parou para analisar o conteúdo das antigas marchinhas. A literatura infantil, as cantigas de roda já passaram por esse escrutínio. O carnaval nada mais é do que a suspensão temporária da moral cotidiana. Talvez por isso as marchinhas tenham sido poupadas. Do contrário, clássicos como A Cabeleira do Zezé teriam sua execução proibida por configurar bullying. Sua liberação só se daria com uma modificação na letra do tipo:

Será que ele é bossa nova
Será que ele é Maomé
Parece que é transviado
Mas isso se ele for, tudo bem
Respeito sua opção

A minha famosa marcha Yes, Nós Temos Bananas iria enfrentar problemas com os que acham que o Brasil deve parar de reforçar o estereótipos de republiqueta tropical exótica. O subversivo verso “eu bebo sem compromisso, é meu dinheiro ninguém tem nada com isso” de A Turma do Funil de Mirabeau, Milton de Oliveira e Castro, seria logo apontado como apologia à desagregação social. E aí você há de me perguntar: e as pastorinhas? Com os dedos indicadores levantados, sorriso no rosto, andar cadenciado, hei de responder:

Pra consolo da lua
Vão cantando na rua
Lindos versos de amor

Feliz carnaval.

POSTADO POR: Braguinha


Braguinha

SOBRE MIM
Provavelmente você já cantou e sabe de cor várias das 420 músicas que compus. Sou conhecido também como João de Barro. Já me reconheceu? Eu sou o pirata da perna de pau.

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